Meu segundo Parto Domiciliar

Lembrando do meu parto. Parto domiciliar. Mais um. Dois. Para provar pra mim mesma que isso é natural, normal e animal. Sem mistérios, e cheio de profundidade, inteireza, hormônios, amor, instinto, “morte” e vida.

Meu segundo parto aconteceu na madrugada do dia 12 para o dia 13 de Maio de 2017 e foi de uma calmaria avassaladora. O dia todo com as contrações e nada do Yuri chegar daquele jeito que só a gente sabe. É porque ele vinha no tempo dele, descendo aos poucos, me ajudando a trabalhar minha ansiedade ariana de vê-lo logo. Foi intenso. E foi solitário de uma certa forma. É como se dessa vez eu estivesse mais forte e me permitindo viver aquele processo das contrações no meu canto. Houve muitos momentos que fiquei na banheira só eu e Yuri. Nos conectando. Até porque, na segunda gravidez meu tempo de conexão consciente foi mais escasso, confesso. Mas foi o que tinha que ser. Afinal, a conexão mais forte já existe só desse bebe estar dentro de mim pulsando seu coração. E foi nesse pulsar que Yuri foi descendo, descendo…na linda orquestra do trabalho de parto para então resolver chegar na mesma posição que seu irmão mais velho chegou, de quatro na cama na virada da noite! 00:04h ele veio em duas contrações fortíssimas!!! A primeira contração já saiu com a cabeça por completo e um braço pra frente como o “superman”  e na segunda veio todo seu corpinho, magro, molhado, cheiroso e quente. Veio pra mim de novo. Nos meus braços, colado no meu peito, no calor do meu corpo, no meu cheiro. Esse que ele só conhecia. Já o posicionei pra mamar o líquido sagrado: o colostro. Nos conectamos ainda mais ali, naquele momento. O cordão umbilical ainda nos conectava no pulsar dessa linda energia mae-bebe em um corpo só. Até que seu pai “cortou” essa nossa conexão do bailar da vida humana terrestre da unidade pra dualidade e vice versa.

Confesso que foi mais que dolorosa a expulsão, tanto no meu canal sagrado (vagina) quanto no meu grito de expulsão! Eram tantas questões que passei no final da gestação, que aquela expulsão não era só do Yuri, mas uma expulsão de tudo difícil que vivi até ali. Foi lindo e intenso por causa disso.

Cauê assistiu. Na verdade ele acordou um pouco antes do Yuri nascer. Foi tão incrível isso. E quando Yuri saiu, Cauê pulava na cama de alegria! Emocionante. Que vida incrível essa terrestre que nos faz viver uma intensidade dessas! Gerar e parir é sagrado e deve ser MUITO respeitado! Essa é minha bandeira e vou continuar no ativismo do parto humanizado. O mundo precisa de seres embebidos no amor da ocitocina 💜

Gratidão eterna minha Doula e parteira Diana Shineider, minha parteira Alexandra Celento, e meus dois amores, meu marido Luiz Salles e meu filho primogênito Cauê. Vocês foram essenciais em mais um momento inesquecível da minha vida. 

Se você busca mais informações sobre os inúmeros benefícios do parto humanizado, seja ele domiciliar ou hospitalar assista ao documentário “O Renascimento do Parto – O Filme”

E um texto com uma ótima informação retirado do site do documentário:

A Organização Mundial da Saúde recomenda que a quantidade de cesarianas não ultrapasse 10% a 15% de todos os partos, sob o risco de graves conseqüências maternas e perinatais. No entanto, esse número atinge taxas próximas a 50% dos partos atendidos no Brasil, chegando ao índice de 90% em alguns hospitais da rede privada. Atualmente, o Brasil figura como o campeão mundial de cesarianas, incluindo cesarianas eletivas (agendadas previamente com o obstetra). Para agravar ainda mais a situação, em praticamente todos os partos vaginais ocorrem diversas intervenções perigosas, traumáticas e desnecessárias, demonstrando um grande descompasso entre a prática médica corrente e a medicina baseada nas mais recentes evidências científicas.

Historicamente, é preocupante observar como aos poucos a tecnologia e o masculino invadiram um evento essencialmente familiar e feminino, tirando das mulheres o protagonismo daquele que poderia ser um grande ritual de passagem e um dos momentos mais plenos de sua vida. Das parteiras tradicionais e comadres ao obstetra altamente especializado, o parto aos poucos foi saindo da esfera familiar, deixou de ser visto como um processo natural e passou a ser encarado como um ato médico. Assim, uma cirurgia que deveria ser encarada como um procedimento de salvamento se tornou a forma normal de nascer. Além das condições financeiras, os determinantes das cesarianas são bastante complexos e podem incluir mitos e convicções dos médicos, bem como características culturais e sociais das pacientes.

É importante ressaltar que, apesar da grande quantidade de cesarianas realizadas no país, um estudo publicado em 2011 por Potter et al. afirma que  cerca de 70 a 80% das mulheres referia preferência pelo parto normal durante o pré-natal, não havendo diferença entre as pacientes atendidas pelo setor privado e público, embora a taxa real de cesarianas tenha sido de 72% a 31% nesses grupos, respectivamente. Portanto, a elevada taxa de cesarianas no Brasil não necessariamente reflete uma maior demanda por esta via de nascimento por parte das mulheres. Em outro estudo publicado em 2008, os mesmos autores demonstraram que a maioria dessas cesáreas foi realizada por causas médicas não justificadas, principalmente entre as mulheres que, durante o pré-natal, tinham declarado preferência pelo parto normal. Os autores sugerem que os médicos frequentemente persuadem suas pacientes a aceitar uma cesariana programada por razões que não existem ou que não justificam este procedimento e não encontram suporte na literatura científica.

É sabido que cesariana bem indicada possui efeitos benéficos documentados e representa em nossos dias um procedimento relativamente fácil e seguro. No entanto, a cesariana realizada desnecessariamente está associada a resultados prejudiciais tanto para a mãe quanto para o concepto.

Portanto, o filme tem seu alicerce na Medicina Baseada em Evidências – movimento internacional criado na segunda metade da década de 1980 e nascido do reconhecimento de que boa parte da prática medica não é respaldada por estudos científicos de qualidade que comprovem a segurança e eficácia dos procedimentos utilizados.  Na área de assistência ao parto, comprovou-se que, já na década de 1980 a distância entre a prática e as evidencias era alarmante. Apesar disso, o ritmo de mudanças tem sido muito lento, e estima-se que atualmente na America Latina apenas 15% dos procedimentos utilizados sejam baseados em evidencias sólidas.

No Brasil, as recomendações da OMS a respeito do parto foram publicadas pelo Ministério da Saúde com o titulo: Assistência ao Parto Normal  – Um Guia Prático. Esse livreto mostra, com base em evidências científicas, que o atendimento ao parto normal no Brasil se vale, em grande medida, do que a ciência médica condena. Infelizmente, na maioria das maternidades, promove-se a chamada cascata de intervenções em todas as mulheres: uma sucessão de procedimentos invasivos, dolorosos e potencialmente perigosos como toques vaginais repetidos, imobilização, instalação de soro e medicamentos para aumentar as dores, corte e costura da vagina, peso na barriga, entre outros. Ademais, tais intervenções sofridas pelas mulheres e pelos recém nascidos, se caracterizam por uma verdadeira violência obstétrica, relatada por ¼ das mulheres em recente estudo e caracterizada não apenas pelo uso de procedimentos e técnicas dolorosas e desnecessárias, mas por violência verbal por parte dos profissionais de saúde.

Infelizmente, esses dados possuem conseqüências graves e desconhecidas de boa parte da população, que vão além dos custos estratosféricos e dos péssimos resultados perinatais que exibimos em relação a outros países.  Através de estudos conduzidos por diversos especialistas nos últimos anos, sabemos hoje o quanto os hormônios liberados em um trabalho de parto que ocorre de maneira natural (os chamados “hormônios do amor”) são importantes não apenas para conduzir naturalmente a fisiologia do parir, mas também para a consolidação do amor materno, do vinculo entre mãe e bebê e da capacidade de amar do indivíduo futuramente.  Baseados nessa informação, tais estudos concluem que diversos distúrbios físicos e mentais (tais como autismo, criminalidade, drogadição, etc) podem estar diretamente relacionados ao que acontece no período que cerca o nascimento, sobretudo ao excesso de cesarianas realizadas ou de partos com ocitocina sintética e outras intervenções.

Além disso, a falta de utilização desse sistema hormonal pelas mulheres durante o parto pode gerar uma maior dificuldade em lidar com o fenômeno no nascimento futuramente, acarretando em partos cada vez mais difíceis e dependentes de intervenções.  Por este motivo,  baseado no conhecimento da fisiologia moderna, se faz necessário redescobrir quais são as reais necessidades da mulher em trabalho de parto, de forma que este momento ocorra da maneira mais fisiológica e natural possível. 

E quando chegamos ao auge da intervenção tecnológica, eis que surge o movimento de retorno: as casas de parto incentivadas pelo governo, as suítes de parto normal criadas pela iniciativa privada e os partos domiciliares planejados, acompanhados por parteiras treinadas e com formação acadêmica.

É importante destacar que o parto em casa, modalidade crescente no  Brasil, é uma realidade do modelo obstétrico de diversos outros países, como a Inglaterra, Canadá e Holanda, onde 40% dos partos são assistidos em domicilio, dentro do sistema de saúde.  Estudos demonstram que partos domiciliares assistidos por parteiras têm os mesmos resultados perinatais que os partos hospitalares de baixo risco, com uma freqüência mais baixa de intervenções médicas.

A Organização Mundial de Saúde reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência ao parto tanto médicos como enfermeiras-obstetras e parteiras e recomenda que as mulheres podem escolher ter seus partos em casa se elas têm gestações de baixo-risco, recebem o nível apropriado de cuidado e formulam planos de contingência para transferência para uma unidade de saúde devidamente equipada se surgem problemas durante o parto. Por sua vez, a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO) recomenda que “uma mulher deve dar à luz num local onde se sinta segura, e no nível mais periférico onde a assistência adequada for viável e segura”.

No entanto, apesar da política de Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento preconizada pelo Ministério da Saúde no Brasil, é fato que o modelo atual, hospitalocêntrico e medicalocêntrico, não permite ainda à maior parte das usuárias ter uma assistência ao parto humanizada e segura.

Considerados os dados acima apresentados e reconhecendo a gravidade da situação em que nos encontramos e a importância do tema para a sociedade, o filme pretende contribuir com a questão promovendo uma profunda reflexão a respeito dos rumos que o nascimento humano está tomando no século XXI. Além disso, o documentário possui como objetivo propor uma urgente e necessária mudança de paradigmas do modelo vigente, em consonância com os objetivos do Ministério da Saúde e com a Organização Mundial de Saúde.”

 

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